Texto escrito por Ubiratan Leal retirado do site da Revista Trivela
"Goste-se ou não do Atlético-PR e de Mário Celso Petraglia, quem conhece a Arena da Baixada (ou Kyocera Arena) sabe que se trata de um dos estádios mais modernos do Brasil, mesmo com alguns erros imperdoáveis de projeto. Talvez seja o mais moderno entre os estádios particulares, considerando que o Engenhão não pertence ao Botafogo. Do anel inferior, a visão do gramado é bastante boa e próxima. E se destacam pequenas placas. Ao invés do “não pise na grama”, está escrito “Não invada o gramado. Não atire objetos. Pena: interdição da Kyocera Arena”.

Projeto de conclusão da Arena da Baixada
Tamanho cuidado se justifica. Em 2004, Atlético e Santos brigaram ponto a ponto, decisão do STJD a decisão o STJD, pelo título brasileiro. Qualquer copo d’água atirado no gramado virava motivo de julgamento, com possibilidade de ter de realizar jogos decisivos longe de sua torcida (de fato, o Santos teve de mandar o jogo do título em São José do Rio Preto). Calejada pelo histórico de punições, a diretoria rubro-negra decidiu colocar o aviso. Não custa nada.
Esse exemplo serve muito bem para retratar a situação do Betis. No último domingo, o time de Heliopolis perdia em casa por 2 a 1 para o Athletic Bilbao em confronto direto para a fuga do rebaixamento. O goleiro Armando, do time bilbaíno, foi cobrar um tiro de meta. Quando tomava distância para o chute, foi acertado no olho por uma garrafa d’água. O impacto abriu o supercílio do jogador basco – que corre o risco de ter descolamento de retina – e o árbitro decidiu suspender a partida.
Nesta terça, o Comitê de Competição da RFEF (federação espanhola) decidiu dar o jogo por encerrado. O placar de 2 a 1 para o Athletic foi mantido e as próximas duas partidas do Betis em casa terão de ser com portões fechados.
Para o padrão brasileiro, parece uma punição normal. Mas, na Espanha, é uma medida rigorosa. Normalmente, a Justiça decide recomeçar a partida do ponto em que parou, ainda que esse trecho final seja sem torcedores. Nos últimos anos, apenas um Murcia x Zaragoza pela Copa do Rei foi encerrado por falta de segurança. E, no caso, faltavam apenas dois minutos para terminar o duelo que os visitantes venciam por 3 a 2.
No caso de Betis 1x2 Athletic Bilbao, ainda havia 19 minutos por jogar. A última vez que um jogo na Espanha foi encerrado com mais tempo que isso foi em 1932, em um Alavés 0x1 Athletic Bilbao. É com base nisso que os béticos reclamam do excesso de rigor da RFEF, a ponto de dizer que se trata de uma manobra de bastidor para rebaixá-los. Outro atenuante, para os heliopolitanos, seria o fato de a segurança do estádio e os torcedores em geral terem imediatamente identificado o agressor e o prendido.
O que não se pode perder de vista é que o Betis é reincidente. Na temporada passada, o dérbi contra o Sevilla no Manuel Ruiz de Lopera foi interrompido pela mesmíssima razão: garrafa na cabeça do adversário. No caso, do técnico sevillista Juande Ramos. Na época, o clube pagou uma multa simbólica, o torcedor responsável pela agressão não pôde mais entrar no estádio e o jogo foi terminado dias depois. Na época, não faltaram reclamações a respeito da suavidade da punição.
Pelo incidente ocorrido no último domingo, as pessoas que defendiam mais rigor ao Betis na temporada passada estavam certas. O fato de o comportamento da torcida não ter mudado é um sinal de que o clube e a torcida não se consideraram suficientemente prejudicados pelas sanções impostas após o jogo contra o Sevilla. Por exemplo, reportagens mostraram como a fiscalização da segurança na estrada do Manuel Ruiz de Lopera é frágil.
O uso de penas mais rigorosas ao Betis é uma indicação positiva de que as autoridades do futebol espanhol podem estar em uma nova fase. No entanto, esse é um trabalho de alto custo político que precisa ser mantido. O que a RFEF faria se a torcida do Barcelona atirasse uma cabeça de porco no gramado, como ocorreu em um clássico contra o Real Madrid em 2002? Ou se o comportamento violento partisse da torcida do Real Madrid?
É esperar para ver. Não custa torcer."
Brenno Costa
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